terça-feira, 16 de março de 2010

Dom Casmurro

Dom Casmurro é um romance do escritor brasileiro Machado de Assis. Foi publicado em 1899, e é um dos livros da literatura brasileira mais traduzidos para outros idiomas.
Enredo
A história se passa no Rio de Janeiro do Segundo Império, e conta a trajetória de Bentinho e Capitu. É um romance psicológico, narrado em primeira pessoa por Bentinho, o que permite manter questões sem elucidação até o final, já que a história conta apenas com a perspectiva subjetiva de Bentinho.
O romance Dom Casmurro além de estar entre as grandes obras da Literatura Brasileira, é considerado como a obra-prima de Machado de Assis.
Análises da obra
Em Dom Casmurro, encontramos a dúvida sobre a existência do adultério de Capitu, não havendo nenhum momento que o comprove, permanecendo apenas como suspeitas. Sendo escrito em primeira pessoa, apresenta apenas a interpretação dos fatos presenciados pelo narrador-personagem, não apresentando em nenhum momento outras visões. O fato de o autor escrever o romance em capítulos curtos, com títulos explicados posteriormente e de utilizar citações de obras importantes e personagens históricos, em frases curtas, facilita a leitura e prende o leitor.
Machado de Assis permite, ao deixar o final com uma questão em aberto, que um mesmo leitor retome o livro e tire diferentes conclusões a cada vez que o releia. Porém, a questão principal do livro não é essa. Machado escreve sobre a suposta traição para que o leitor se distraia, e só os mais atentos percebam que o assunto principal da obra é a análise social da sociedade burguesa brasileira do século XIX. Para isso, Machado trabalha um micro cosmo - Casa de D. Glória- para refletir sobre o macro cosmo - a sociedade. Assim, cada habitante da casa representa um tipo social da época.
Os pólos do livro
O livro apresenta dois pólos: o dos dominantes e os dos dominados.
Dominantes: Dona Glória (a matriarca escravocrata da qual todos dependem), Capitu (domina Bentinho e em partes D. Glória) e Dom Casmurro.
Dominados por D. Glória: Bentinho, José Dias, prima Justina, Tio Cosme, Sancha, Gurgel, etc.
Dominados por Capitu: Bentinho, em parte D. Glória, Ezequiel, etc
A santidade da Família Santiago: A Família Santa
Dona Glória passara anos tentando engravidar sem sucesso. O seu primeiro filho morre logo ao nascer, e por possuir uma grande fé, faz uma promessa a Deus: se conseguisse engravidar novamente e ter um filho homem ele seria padre. Daí, ela finalmente consegue. O nascimento de Bentinho é um milagre, já que ele é fruto de uma promessa a Deus.
Machado já glorifica D. Glória em seu nome: GLÓRIA, sendo ela uma mãe que ampara e ama profundamente seu filho, vivendo para ele.
Metalinguagem
Em Dom Casmurro, Machado de Assis enquanto narra, discute o ato e o modo de narrar. Ele põe em prática a metalinguagem, em que a própria narrativa trata de se auto-explicar. Logo no início, a metalinguagem ganha corpo, quando o personagem-narrador explica o título do livro e os motivos que o impulsionaram a escrevê-lo: Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores, alguns nem tanto. E mais adiante: Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.
Durante toda a narrativa de Dom Casmurro, a metalinguagem tem um papel fundamental, dando um tom muitas vezes jocoso, ou criando cumplicidade com o leitor, que ao invés de apenas ler passivamente, participa do próprio ato de narrar, ao servir de confidente do escritor, transcendendo o próprio texto.
Alguns exemplos
• Ao narrar as tentações vividas na juventude dirige-se a uma possível leitora "Tudo isso é obscuro, dona leitora, mas a culpa é do vosso sexo, que perturba assim a adolescência de um pobre seminarista".
• Ao dar uma explicação, dialoga com o leitor dizendo: "Não sei se me explico bem. Suponde uma concepção grande executada por meios pequenos".
• Depois de longa narração preliminar, chega ao ponto em que vai narrar o casamento e diz: "Pois sejamos felizes de uma vez, antes que o leitor pegue em si, morto de esperar, e vá espairecer a outra parte; casemo-nos."
Intertextualidade
As fases do romance
A ação do livro acontece em duas fases, a primeira vai da adolescência de Bentinho com a decisão de seus familiares que, por uma promessa feita por sua mãe, ele deveria tornar-se padre. O convívio com Capitu e a luta para se unir a ela, contrariando a vontade dos familiares. O casamento, o qual torna Bentinho um homem lutador que busca por seus sonhos. A segunda parte trata desde sua separação de Capitu, por causa da desconfiança sobre a paternidade do filho, até o seu fim solitário, como homem frio que esqueceu sua luta para conquistar Capitu.
As duas pontas da vida
No desenvolvimento do romance, o narrador diz que tentou "atar as duas pontas da vida", a juventude e a velhice, ou nascimento e morte. Essa tentativa fica evidente em algumas de suas atitudes, descritas a seguir:
• Relembrar sua história enquanto jovem, e tentar reviver as lembranças após a parada para analisar sua vida e perceber que talvez estivesse errado.
• O relacionamento paradoxal com Escobar, que sendo amigo era também um fantasma na vida conjugal, pois Bentinho acreditava que ele era o amante de Capitu.
• Os sentimentos antagônicos em relação ao filho Ezequiel, por sua semelhança com Escobar.
• A construção de uma casa idêntica à antiga casa da Rua de Matacavalos onde viveu quando criança.
O enigma
Pela narração não há como afirmar se houve ou não adultério. Os fatos deixam dúvidas, pois a semelhança de Ezequiel com Escobar, o fato de Escobar ser muito amigo de Capitu e sempre rondar a família levam o leitor a pensar que houve a traição. Por outro lado, a amizade de Capitu por Escobar não seria amor carnal, mas um amor fraterno, o seu amor por Bentinho desde a infância e a sua luta por ele, além do fato dele não ter visto a traição, levam o leitor a acreditar em sua fidelidade.
O leitor pode supor que Bentinho fosse ciumento e imaginasse os fatos. Não há comprovação de nada, afinal a visão dos fatos é parcial, já que Bentinho que narra a história como a vê.
Além disso, soma-se uma lógica ziguezagueante com que Bentinho narra a história, um raciocínio tortuoso que, por vezes, omite certos fatos propositalmente, e em outros, esquece de contar episódios.Entretanto, não se pode afirmar em quais trechos houve omissão proposital ou não.
Há divergências sobre a traição de Capitu. Várias teses acadêmicas já abordaram o assunto e nenhuma chegou a uma análise conclusiva:
• Em páginas mais avançadas deste clássico da literatura brasileira, o autor deixa claro que o filho de Bentinho com Capitu era quase idêntico ao seu amigo Escobar.
• Antes, porém, o pai de Sancha relata que Capitu se parece muito fisicamente e também no gênio com sua falecida esposa, deixando a idéia de que existem semelhanças inexplicáveis no mundo, o que justificaria a semelhança entre o filho de Dom Casmurro e Escobar.
• Também há criticas sobre o fato de que, tanto Capitu quanto Escobar sempre achavam que, quando crescessem, Ezequiel e Capituzinha acabariam namorando, algo que não incentivariam caso as crianças fossem realmente irmãs.
• Mas por outro lado, ambos talvez não desconfiassem disso, e os outros personagens não desconfiavam também não fica demonstrado que desconfiavam, e apenas comentar questiona-se que chegue a ser um incentivo.
• Nas páginas iniciais da obra, o autor descreve Capitu como tendo muita facilidade em disfarçar as situações, inclusive enganando seus pais que tanto amava muitas vezes, o que fortalece a hipótese de adultério.
• Cogita-se a possibilidade de a mãe de Bentinho também desconfiar da paternidade de Ezequiel, já que com o passar do tempo, conforme a criança vai ficando cada vez mais parecida com Escobar, ela passa a ser indiferente com o neto e também com Capitu.
• Apesar da suspeita acima, não se pode deixar de cogitar também o fato de simplesmente a mãe de Bentinho ter se tornado uma senhora "ranzinza" com o passar dos anos, portanto mais fria com as pessoas ao seu redor.
• Também há o fato de Bentinho tentar ter um filho com Capitu por muito tempo (como D. Glória, que passou anos tentando engravidar) e não ter conseguido. Fazendo o leitor imaginar que ele fosse estéril; assim, Capitu só engravidaria de Escobar.
Os medalhões das Casas de Bento
Quando Bento vai mudar da casa de sua mãe, na Rua de Matacavalos, para a Praia da Glória, ele constrói uma casa idêntica aquela em que viveu desde criança, colocando inclusive quatro medalhões de quatro imperadores notórios na sala de estar: Nero, Augusto, Massinissa e César que, segundo Bento, o sugerem a escrita do romance.
Os imperadores possuem algo muito interessante em comum: acusaram suas mulheres de adultério e mataram-nas, mesmo sabendo que elas eram inocentes. César disse: " minha mulher não basta ser inocente, ela tem que parecer inocente". Isso nos dá mais uma pista sobre a suposta traição no romance.
Qual sua critica sobre Dom Casmurro?

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